'Nada disso vale a nossa saúde', diz musa da Colorado do Brás

A musa da Colorado do Brás desiste do carnaval após complicações graves com caneta emagrecedora

 

Propaganda de doses de canetas emagrecedoras em Fortaleza
Propaganda de doses de canetas emagrecedoras em Fortaleza | Foto: reprodução/redes sociais

Izadora Morais foi internada com suspeita de embolia e alterações no fígado; especialistas alertam para o risco de pancreatite aguda, que já provocou ao menos seis mortes suspeitas no Brasil

Era para ser a estreia dos sonhos no carnaval paulistano. Izadora Morais, musa da Colorado do Brás, havia aceitado o convite para desfilar ao se identificar com o enredo que exalta bruxas e feiticeiras — mulheres que desafiaram seu tempo. O que ela não imaginava é que, nos bastidores, enfrentaria uma batalha silenciosa contra a pressão estética, e quase perderia a vida.

Izadora precisou ser internada após complicações graves com o uso de Mounjaro (tirzepatida) , uma das populares “canetas emagrecedoras”. Em dois meses, perdeu 9 kg. Mas o preço foi alto: exames apontaram alterações no fígado, suspeita de embolia e um quadro clínico que a obrigou a abandonar a folia por recomendação médica. Os sintomas surgiram logo no início do tratamento: cansaço extremo, manchas na pele, dores e inchaço.

“Queira ou não, a gente [mulheres] se compara muito, quer emagrecer rápido e sente uma cobrança estética. Quando fui parar no hospital, percebi que estava colocando minha vida em risco. Nada disso vale a nossa saúde”, desabafou Izadora, que agora faz um alerta público. “Não existe atalho, não podemos fazer loucuras, nem entrar no hype.”

O risco silencioso da pancreatite aguda
O caso de Izadora escancara um perigo que já acendeu alertas no Brasil e no mundo. Enquanto a musa enfrentava dores abdominais e suspeita de embolia, milhares de brasileiros expõem-se diariamente ao mesmo risco, muitos sem saber que as canetas podem provocar uma inflamação grave e potencialmente fatal no pâncreas.

Dados obtidos pelo UOL junto à Anvisa revelam um cenário preocupante: entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025, o órgão recebeu 145 notificações de suspeitas de pancreatite relacionadas ao uso de análogos de GLP-1 — classe que inclui Mounjaro, Ozempic, Wegovy e Saxenda . Quando considerados também registros de pesquisas clínicas, o número sobe para 225 casos .

Desse total, seis tiveram desfecho suspeito de morte . A Anvisa ressalta que não é possível afirmar relação causal direta, pois os casos baseiam-se em notificações espontâneas, muitas vezes sem histórico clínico completo. Mas o crescimento das ocorrências é inegável: 45 notificações só em 2025, um aumento de mais de 60% em relação ao ano anterior .

O que diz a ciência?

A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, é um agonista duplo dos receptores GIP/GLP-1. Funciona imitando hormônios naturais que aumentam a saciedade e retardam o esvaziamento gástrico. Mas essa mesma ação, ao estimular as células pancreáticas, pode desencadear processos inflamatórios no órgão .

Relatos de caso publicados em revistas científicas de alto impacto — incluindo o PubMed e o PMC — documentam quadros graves de pancreatite aguda associados ao uso da tirzepatida . Em um dos casos, um homem de 59 anos desenvolveu pancreatite dois dias após trocar o Ozempic pelo Mounjaro, apresentando lipase 14 vezes acima do normal e agravamento do quadro com febre, derrame pleural e acometimento do cólon .

Outro relato descreve uma mulher de 32 anos, sem diabetes, que usou Mounjaro por cinco semanas para emagrecer. Deu entrada no hospital com lipase de 11.645 U/L — o normal é até 60 U/L — e pancreatite intersticial edematosa .

As bulas já trazem o alerta: a pancreatite aguda é uma reação incomum (ocorre entre 0,1% e 1% dos usuários do Mounjaro), mas pode ser grave. A orientação é suspender imediatamente o medicamento diante da suspeita e nunca reiniciá-lo após a confirmação do diagnóstico .

Alerta internacional

O Brasil não está sozinho. Autoridades sanitárias do Reino Unido emitiram em janeiro de 2026 um alerta sobre o risco de pancreatite aguda grave, incluindo casos necrosantes e fatais, associado às canetas . Entre 2007 e outubro de 2025, a agência britânica MHRA recebeu 1.296 notificações de pancreatite relacionadas a agonistas GLP-1, das quais 19 evoluíram para óbito e 24 foram diagnosticadas como pancreatite necrosante .

A MHRA estima que 1,6 milhão de adultos na Inglaterra, País de Gales e Escócia usaram esses medicamentos para perda de peso só no último ano . E investiga agora se fatores genéticos podem explicar por que alguns pacientes desenvolvem reações graves .

Uso off-label e compra sem receita: uma bomba-relógio

O grande nó da questão está no uso indiscriminado. As canetas são aprovadas para diabetes tipo 2 e obesidade, mas têm sido amplamente procuradas por pessoas com sobrepeso leve ou até peso normal — como a própria Izadora — em busca de emagrecimento rápido. Muitas adquirem os produtos sem prescrição, pela internet ou em comércio informal, sem qualquer acompanhamento médico .

Em junho de 2025, diante do avanço das vendas descontroladas, a Anvisa passou a exigir a retenção da receita médica em duas vias para a dispensação desses medicamentos, mesmo critério aplicado a antibióticos . Mas a fiscalização ainda é um desafio.

O endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da Abeso e diretor da SBEM, pondera que a relação causal entre as canetas e a pancreatite é debatida há 20 anos. “Pessoas com obesidade e diabetes já têm risco aumentado para a doença”, explica ao UOL. “Se a causa foi cálculo biliar e a vesícula foi retirada, o risco tende a ser menor. Se foi triglicérides elevados, essas drogas podem até ajudar. Já em casos de pancreatite de causa desconhecida, o cuidado precisa ser maior” .

O médico ressalta que pacientes com histórico de pancreatite foram excluídos dos estudos clínicos. “Ainda temos pouca evidência sobre a segurança dessas medicações nesse grupo específico” .

Sintomas que não podem ser ignorados
A Anvisa e as sociedades médicas são claras: dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas, acompanhada de náuseas e vômitos, é sinal de alerta para pancreatite. A recomendação é buscar atendimento médico imediato .

Outros sinais de gravidade incluem febre, calafrios e taquicardia. O diagnóstico é feito por exame clínico, medição de enzimas pancreáticas (lipase e amilase) e exames de imagem, como tomografia.

 

Izadora Morais aceitei de vez Jesus em meio ao caos como único Salvador
Culto evangélico em uma comunidade no interior do Estado do Ceará | Foto: Danilo computadores



“Fui tocada”: o recomeço de Izadora

Izadora Morais recebeu alta, mas segue em repouso absoluto. O sonho do carnaval ficou para trás — e, neste momento, ela afirma que não pretende retornar no próximo ano. O episódio, diz, teve também um impacto espiritual.

“Se existe mesmo Espírito Santo, fui tocada. Aceitei de vez Jesus em meio ao caos. Desde que o aceitei como único Salvador, as coisas começaram a melhorar. Meu estado de saúde evoluiu, as manchas e dores sumiram”, relata. “Enxergo como um alerta e um chamado. Vou respeitar isso. Agora vejo como um livramento.”

Seu desabafo ecoa o de tantas mulheres que, pressionadas por um ideal estético inalcançável, arriscam a vida em busca de resultados rápidos. A ciência ainda busca respostas sobre os mecanismos exatos que ligam as canetas à pancreatite. Mas uma lição já está dada: atalhos podem custar caro — e há preços que a saúde não pode pagar.

Fontes: Anvisa, MHRA (Reino Unido), PubMed, PMC, UOL, Veja Saúde, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

Reportagem: Danilo computadores

Postar um comentário

0 Comentários