O Brasil figura entre os países que mais produzem conhecimento científico no mundo, mas essa posição não se reflete com a mesma força na geração de produtos, tecnologias e soluções de alto impacto econômico

Pedro Jalles | Foto: Mariana Ribeiro
Por Mariana Ribeiro
Em 02/02/2026
Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) mostram que o país investe cerca de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento. E com essa realidade, o termo “vale da morte” da inovação, se consolida como uma fase crítica em que muitos projetos de engenharia acabam estagnados ou abandonados.
Para Pedro Rodrigues de Castro Jalles, engenheiro e pesquisador, o problema está na fragilidade da transição entre as etapas do processo inovador. “O Brasil forma engenheiros altamente qualificados e produz pesquisas relevantes, mas muitos projetos morrem justamente quando precisam sair do ambiente controlado do laboratório para enfrentar a realidade do mercado”, analisa.
Segundo Jalles, o chamado “vale da morte” ocorre, principalmente, na fase em que a inovação deixa de ser apenas científica e passa a ser empreendimento. A prototipagem avançada, validação industrial, testes em escala e adequação regulatória são etapas que demandam investimentos elevados, riscos que poucos agentes estão dispostos a assumir, e uma transição robusta necessária que o país ainda não está preparado para sustentar.
Outro ponto destacado pelo pesquisador é o peso da burocracia. Processos lentos para contratação, aquisição de insumos, proteção de propriedade intelectual e formalização de parcerias tornam o ciclo de inovação mais longo e menos atrativo para investidores. “Quando uma tecnologia leva anos para sair do papel, ela corre o risco de chegar atrasada ou perder competitividade frente a soluções estrangeiras”, ressalta Jalles.
Apesar dos desafios, Jalles aponta que o crescimento de programas de inovação, mais interesse de empresas por parcerias tecnológicas e o fortalecimento de ambientes de inovação regionais são aspectos positivos essenciais. No entanto, o especialista alerta que essas iniciativas precisam ser contínuas e estruturais, com um financiamento estável, segurança jurídica e uma cultura de cooperação que acompanhe o projeto até o mercado.
Para atravessar o “vale da morte”, o pesquisador aponta que os três fatores essenciais, são a integração entre engenharia e negócios; políticas públicas de longo prazo e maior participação do setor privado. “Inovação não é um evento isolado, é um processo. E enquanto o Brasil não tratar essa travessia como parte estratégica do desenvolvimento nacional, continuará produzindo boas ideias que não se transformam em soluções reais”, conclui Jalles.
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