Com uso de impressão 3D, professor cria kit manipulável que aproxima conceitos abstratos da realidade dos alunos
![]() |
| Da esquerda para a direita: o orientador Aldo Trajano Louredo, Gerivaldo Bezerra da Silva e o co-orientador Israel Buriti Galvão na defesa da dissertação | Foto: Leonardo Zacarin/Arquivo pessoal |
Para tornar a matemática mais interessante e a geometria mais palpável para os alunos do ensino básico vale tudo:
desde imprimir peças até buscar referências em livros pouco conhecidos de outros países.
Foi exatamente isso que fez o professor Gerivaldo Bezerra da Silva ao desenvolver a dissertação vencedora do Prêmio Regional de Dissertações do Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), na região Nordeste.
Intitulado “Traçados geométricos auxiliares em triângulos:
Descrição de técnicas e produção de material de ensino e aprendizagem em impressora 3D”, o trabalho foi inspirado por livros peruanos que abordam a geometria de forma mais visual e desafiadora.
“São livros bem pequenos feitos com papel reciclado de autoria de um engenheiro chamado Barcena. O conteúdo não tem a formalidade matemática, mas traz desafios bem interessantes”, conta o professor.
Quem apresentou Gerivaldo à obra foi Aldo Trajano Louredo, docente da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde Gerivaldo cursou o PROFMAT. Além de orientar Gerivaldo, Louredo também o estimulou a usar a impressora 3D que a Universidade tinha acabado de receber.
Segundo Gerivaldo, que atua como professor do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), ele já tinha interesse em se aprofundar na cultura maker, e acabou recebendo de bom grado o desafio de transformar as proposições em algo palpável.
“A ideia é que, ao estudar conteúdos como geometria plana, semelhança, congruência ou o teorema do ângulo externo, o aluno consiga enxergar essas relações como aplicações. A gente organizou esses conteúdos em proposições e construiu as demonstrações com apoio de muitas imagens”, explica.
A construção da dissertação também passou pela seleção de problemas. Além das sugestões encontradas nos livros que inspiraram a pesquisa, Gerivaldo incorporou questões de olimpíadas de matemática, conhecidas por exigir raciocínio mais investigativo e uso estratégico de traçados auxiliares.
Foi a partir desse conjunto que se estruturou a base teórica do trabalho.
Construção do material didático
Foi nesse processo que Gerivaldo decidiu ampliar a equipe e convidou o professor Israel Buriti Galvão, também da UEPB, para atuar como co-orientador. A entrada dele foi importante sobretudo na parte técnica do projeto.
“O professor Israel tinha mais domínio da informática e foi me ajudando a entender os softwares e como transformar as ideias em peças concretas”, conta.
Depois de testar diferentes caminhos, o grupo chegou ao Blender, um software livre de modelagem 3D bastante utilizado, inclusive na produção de animações.
A escolha permitiu que cada peça respeitasse medidas e proporções, já que qualquer distorção poderia comprometer o entendimento dos conceitos geométricos.
A partir daí, o pesquisador precisou ser paciente e fazer inúmeras tentativas de impressão, seguidas de ajustes.
“Não bastava que as peças funcionassem do ponto de vista físico. Elas precisavam fazer sentido matematicamente. Um segmento, por exemplo, não poderia ser só uma peça alongada. Ele precisava permitir comparação, sobreposição e identificação de igualdade. O mesmo valia para ângulos e marcas de congruência, que precisavam ser visualizados de forma clara, sem gerar ambiguidades”, explica Gerivaldo.
Com dedicação, foi possível construir um kit com peças imprimíveis em 3D que representam pontos, segmentos, ângulos e relações de congruência. Com elas, o aluno monta figuras e resolve problemas como se estivesse lidando com um quebra-cabeça.
Em vez de seguir um passo a passo pronto, precisa testar hipóteses, reorganizar as peças e construir as relações até chegar a uma conclusão.
Além das peças, o pesquisador desenvolveu três materiais de apoio. O manual do aluno apresenta as proposições e os desafios. O manual do professor traz orientações de uso, instruções de impressão e sugestões de aplicação em sala.
Já o guia de resolução funciona como um roteiro de pistas, conduzindo o raciocínio sem entregar diretamente as respostas.
Todo o material foi disponibilizado gratuitamente, com arquivos e orientações detalhadas. Com a presença cada vez maior de impressoras 3D em escolas e espaços de inovação, o kit pode ser adaptado e utilizado em diferentes contextos, sem depender de materiais caros ou de difícil acesso.
Para o professor do IFPB, a proposta dialoga com uma dificuldade comum no ensino de matemática, especialmente na geometria.
“Muitos alunos têm dificuldade em sair do desenho e chegar ao conceito. Ao incorporar o tato e a manipulação, o material amplia as possibilidades de compreensão e atende diferentes formas de aprender”, destaca.
Um prêmio que valida e impulsiona
Natural de São José do Sabugi, no interior da Paraíba, Gerivaldo construiu sua trajetória inteiramente na escola pública. Filho desse sistema que, segundo ele, “é alicerce de uma sociedade mais justa”, foi também dentro dele que encontrou sua vocação.
Ainda estudante, já se encantava por desafios e problemas matemáticos, fascínio que o acompanhou até a graduação em Licenciatura em Matemática pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e, mais tarde, à sala de aula como professor.
Já o caminho até o título de mestre sofreu alguns reveses, abandonos e recomeços, mas Gerivaldo insistiu. A conclusão veio em 2024, coroando uma trajetória marcada por persistência.
“Depois de anos dedicados a uma rotina intensa em sala de aula, especialmente no ensino fundamental, a experiência no PROFMAT funcionou como um ponto de inflexão.
Foi ali que retomei o interesse em produzir, testar e refletir sobre a própria prática de ensino”, afirma o professor.
Segundo Gerivaldo, a escolha da sua dissertação para receber o Prêmio PROFMAT pela região Nordeste foi uma confirmação de que a pesquisa aplicada à escola pública tem valor.
“É a validação de que acreditar na inovação pedagógica vale a pena”, afirma.
Atuando no IFPB, Gerivaldo quer aplicar o kit em sala de aula com seus alunos e também deseja expandir o uso da impressão 3D para outros conteúdos.
“Vejo a impressão 3D com um potencial educacional muito grande. Estou idealizando um projeto de modelagem com os próprios alunos, para que a gente pense juntos como transformar determinados conteúdos em materiais concretos que ajudem na compreensão. A sala de aula é muito diversa, e precisamos de diferentes estratégias para alcançar todos os alunos”, conclui.

0 Comentários